Imagen de doctor explicando sobre herencia-autismo

DEPOIS DO DIAGNOSTICO DO AUTISMO: VOCÊ TERIA OUTRO FILHO?

Last Updated on 7 março, 2021 by Enoc Sejas

Cada vez mais pessoas optam por ter filhos mais tarde e outras tantas decidiram simplesmente não tê-los. Esta decisão, porém, não está livre do julgamento não só da família, amigos, como de toda a sociedade. Um estudo recente da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, indica que as reações a adultos sem crianças são ainda mais drásticas do que se pensava.

Para saber o complicado que é criar um filho autista, não é necessário citar algum artigo cientifico, temos que estar ao pendente dele, praticamente o tempo tudo. Dependendo do grau de comprometimento de nosso filho dentro do espectro autista. Vivemos correndo uma maratona. Matando vários leões por dia. Nossa vida não é fácil. Parece que a gente não pode nem se dar ao luxo de ficar doente. Então naqueles momentos de descanso, na tranquilidade do seno familiar, a pergunta está ali, flutuando no ar, o que saiu errado? Será que é bom ter outro filho?

Porém, o que diz a ciência em relação as probabilidades do próximo filho ser neurotípico. É possível detectar anomalias genéticas nos pais, para prevenir ter filhos com alguma doença neurológica?

Culpando as mães, um pouco de história

O subtítulo acima não exime os pais de serem culpados pelas doenças dos filhos, foi o que aconteceu com Pedro*, hoje com 34 anos. Seus três filhos, de dois casamentos, têm autismo. A certeza de que há perspectivas otimistas para os meninos faz com que Pedro continue buscando ajuda e dá uma injeção de ânimo em quem vive situação parecida. A seguir parte de a entrevista realizada pela revista CRESCER.

[box type=”bio”] CRESCER: Como foi receber o diagnóstico pela primeira vez e como você lidou com os outros dois? PEDRO: Eu tinha 22 anos, não era casado, mas tinha uma relação com uma mulher bem mais velha. Nós tivemos dois filhos. Ela era independente e nós não vivíamos juntos. Foi ela quem me procurou e contou que os dois meninos eram especiais [hoje eles têm 8 e 10 anos e moram com a mãe]. Mas na época ela contou que tinha um caso de problema neurológico na família e eu assumi que o problema seria da parte dela. Seguimos com nossas vidas, dando a atenção necessária aos meninos. Porém, há quatro anos eu me casei e logo em seguida tive meu terceiro filho. E há um ano e meio veio o diagnóstico: ele também era autista. Aí realmente o mundo desabou na minha cabeça porque eu percebi que a carga genética era minha.[/box]

Sem duvida alguma, um dos piores mitos da história do autismo, foi protagonizada por Bruno Bettelheim o pai dos acusadores das mães.

Por formação, Bettelheim não era médico nem analista – ele fez seu doutorado em psicologia na universidade de Viena. Não obstante, tornou-se um dos mais conhecidos e influentes “especialistas” do mundo em saúde mental infantil, particularmente no autismo. Em 1967, Bettelheim escreveu em seu livro A fortaleza vazia que o autismo era causado tanto pela biologia quanto pelo ambiente. Contudo, os casos apresentados por ele indicavam que o autismo era causado por mães más.

De acordo com ele, pais de crianças autistas eram distantes, frios e sofriam de psicopatologias próprias. Do seu ponto de vista, embora a disfunção tivesse caráter biológico, uma atitude negativa dos pais em relação à criança levava o distúrbio biológico a se manifestar.

Entretanto, do outro lado da moeda, muitas empresas tecnológicas como Microsoft, HP, SAP… estão na procura de pessoas autistas, para forma-las e posteriormente possam trabalhar com elas, principalmente no relacionado a testes de software. Isto devido a excelente capacidade de concentração e zero tolerância ao erro das pessoas enquadradas nos Transtornos Autistas de Nível 1, em concordância com a nova classificação do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais DSM V, publicada em maio de 2013.

Imagem das gigantes da tecnológia sobre a herança-autismo,
Microsoft e Google trasladaram sua rivalidade aos domínios do espectro autista / ACP

Também Google está financiando um projeto controverso sob o autismo, em conjunto com a fundação Autism Speak. Este projeto MSSNG está atualmente em execução, e tem a meta de sequenciar o genoma de 10.000 indivíduos em famílias afetadas com autismo, para então usar essa “base de dados” com diferentes fins tecnológicos e médicos.

O autismo pode-se herdar?

A origem dos Transtornos do Espectro Autista [TEA] ainda são desconhecidas, é complexo determinar qual a probabilidade real para que em uma família poça acontecer ou não algum caso de autismo. Ou qual o risco de herdabilidade que nós podemos esperar. Por isso e complicado oferecer um conselho genético as famílias que tem um filho autista e estão pensando ter mais filhos.

Entretanto, podemos oferecer a seguinte informação para poder ajudar nesta tomada de decisão.

Autismo: Manual para as Famílias – Autism Speaks

“O autismo não é um transtorno com uma causa, mas um grupo de transtornos relacionados com muitas causas diferentes”

A complexidade desse Transtorno e o fato de que os sintomas e severidade podem variar [Espectro], provavelmente são quadros resultantes da combinação de diferentes genes.

Alguns problemas genéticos acontecem espontaneamente e outros são herdados.

De fato, estudos sugerem uma herdabilidade muito alta, mais ainda quando se considera a presença de traços do espectro autista numa mesma família. Em muitas delas parece haver um padrão de autismo ou deficiência relacionados, apoiando ainda mais a tese de que esses Transtornos têm uma base genética.

Apesar de nenhum gene ter sido identificado como causador de autismo, pesquisadores estão procurando mutações do código genético que as crianças com autismo possam ter herdado.

Estudos recentes indicam também que o autismo não é regido apenas por causas genéticas.

A suposição é que fatores ambientais que tenham impacto no desenvolvimento do feto, como stress, infecções, exposição a substâncias químicas tóxicas, complicações durante a gravidez, desequilíbrios metabólicos podem levar ao desenvolvimento do autismo.

Dentro dos fatores ambientais, pesquisadores detectaram uma maior importância para o risco de TEA dos fatores ambientais individuais, que incluem complicações durante o nascimento, infecções maternas ou a medicação que se recebe antes e após o nascimento, face aos fatores ambientais partilhados pelos familiares.

De acordo com o artigo publicado no The Journal of the American Medical AssociationJAMA, uma grande pesquisa feita no Instituto Karolinska, em Estocolmo – Suécia, analisou mais de dois milhões de crianças nascidas nesse país entre 1982 e 2006 e revela agora que a hereditariedade, apesar de muito significativa, só explica metade do risco para se desenvolver autismo. Os restantes dos fatores têm sua origem no ambiente.

A equipe de pesquisadores descobriu ainda que as causas hereditárias, ou seja, a informação genética que os pais transmitem aos filhos, explicam apenas 50% do risco de se vir a desenvolver TEA. Estudos anteriores tinham calculado que era de 80% a 90%. Segundo este novo estudo, o fator ambiental poderá ser, afinal, muito maior do que era assumido.

“Ficamos surpreendidos com as nossas descobertas, já que não esperávamos que a importância dos fatores ambientais no autismo fosse tão forte. Os estudos recentes centravam-se tendencialmente nos genes, mas agora tornou-se claro que precisamos de futuras investigações para identificarmos quais são ao certo estes fatores ambientais”, explica Avi Reichenberg, do Centro Seaver para a Investigação do Autismo, Nova Iorque – EUA.

Pelo exposto nos parágrafos passados, podemos afirmar que os filhos podem herdar o autismo e a manifestação desta patologia neurológica está fortemente influenciado pelos fatores ambientais.

Contudo, voltemos atrás e deixemos a Pedro finalizar este artigo.

CRESCER: Que dica você daria para um pai que está enfrentando essa situação?

PEDRO: Eu sou kardecista, é uma crença particular, mas acho que nada na vida acontece por acaso. E aí não tem jeito, você vai passar pelas fases que são naturais. Primeiro, aquela tijolada que você recebe na cabeça. Depois, e aí é que está a grande dica, você tem duas opções: ficar chorando na cama, lamentando uma coisa que não vai mudar ou você ir atrás de informação, de ajuda e profissionais que estejam comprometidos e informados. Grandes médicos hoje não acreditam em nada do que a gente está falando, acreditam que o diagnóstico de autismo é uma sentença e acabou. E não é verdade. Claro que existem casos e casos, e os quadros mais graves do espectro nem sempre evoluem bem. Mas você não pode definir o diagnóstico como uma sentença. Tenha fé e não pense que, se o seu filho não evoluiu como você esperava, foi uma viagem perdida. Os resultados podem aparecer em prazos longos, por isso que paciência e fé são fundamentais. Tenha certeza, como pai de crianças especiais, que paciência e fé não são coisas grandes de se pedir. Eu falo de coração aberto: este ano passei o Dia dos Pais ouvindo meu filho me chamar de papai. No ano passado, saí do consultório médico sentenciado que não aconteceria. Então, já valeu a pena.

*O nome do pai foi trocado a pedido do entrevistado

Referencias

¿El autismo es hereditário?                                                                                                         http://autismomadrid.es/federacion-autismo-madrid-blog/el-autismo-es-hereditario/. Acessado em 10/04/2017.

Em 2017, não ter filhos ainda é visto como moralmente errado diz estudo.  https://estilo.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2017/03/17/.

Pai de três filhos com autismo conta como aprendeu a encarar a vida de forma otimista. http://revistacrescer.globo.com/. Acessado em 10/04/2017.

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