História do autismo: como surgiu e evoluiu até hoje [2026]

A história do autismo não começa em 1943. Pessoas com características que hoje associamos ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) provavelmente sempre existiram. O que mudou ao longo do tempo foi a forma de observar, nomear e compreender essas diferenças.

O termo “autismo” começou a ser empregado pelo psiquiatra suíço Eugen Bleuler no início do século XX, inicialmente associado à esquizofrenia. Em 1943, Leo Kanner descreveu um grupo de 11 crianças e apresentou o “autismo infantil precoce” como um quadro distinto. Nas décadas seguintes, a compreensão passou da culpa injusta atribuída às mães para o reconhecimento atual do autismo como um transtorno do neurodesenvolvimento, amplo e diverso.

História do autismo: resumo em uma linha do tempo

  • 1908–1911: Eugen Bleuler utiliza o termo “autismo” para descrever um afastamento da realidade observado em alguns pacientes com esquizofrenia.
  • 1943: Leo Kanner publica “Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo”, baseado na observação de 11 crianças.
  • 1944: Hans Asperger publica seu estudo sobre crianças que chamou, segundo a terminologia da época, de “psicopatas autistas”.
  • Décadas de 1950 e 1960: ganha força a teoria equivocada da “mãe-geladeira”, que responsabilizava as mães pelo autismo.
  • 1964: Bernard Rimland defende uma origem biológica para o autismo e ajuda a enfraquecer as explicações baseadas na culpa familiar.
  • 1980: o DSM-III reconhece o autismo infantil em uma categoria diagnóstica própria.
  • 1981: Lorna Wing difunde o trabalho de Asperger e contribui para ampliar a ideia de espectro.
  • 1983: é fundada a Associação de Amigos do Autista (AMA), uma das primeiras organizações brasileiras formalizadas na área.
  • 1994: o DSM-IV reúne diferentes condições entre os Transtornos Globais do Desenvolvimento.
  • 2012: o Brasil sanciona a Lei Berenice Piana.
  • 2013: o DSM-5 unifica os antigos diagnósticos sob a denominação Transtorno do Espectro Autista.
  • 2022: entra em vigor internacionalmente a CID-11; o DSM-5-TR mantém o conceito de espectro.
  • 2025: o IBGE divulga os primeiros dados nacionais do Censo sobre pessoas diagnosticadas com autismo no Brasil.

O que significa a palavra autismo?

A palavra “autismo” deriva do grego autós, que significa “si mesmo”. Bleuler formou o termo para descrever um estado de afastamento do mundo exterior. Naquele momento, autismo não designava uma condição independente: era considerado um sintoma relacionado à esquizofrenia.

O significado mudou profundamente. Atualmente, o autismo é compreendido como um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por diferenças persistentes na comunicação e na interação social, acompanhadas por padrões restritos ou repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. A apresentação varia muito de uma pessoa para outra; por isso se utiliza a palavra espectro.

Quando surgiu o autismo?

O autismo não “surgiu” em uma data específica. O que surgiu foi um nome e, posteriormente, uma categoria diagnóstica. Há relatos históricos de pessoas que podem ter apresentado características compatíveis com o espectro, mas não é possível diagnosticá-las retrospectivamente com certeza.

Por isso, a resposta mais precisa é: o termo autismo apareceu no início do século XX, e o autismo infantil foi descrito como um quadro específico por Leo Kanner em 1943.

Como o autismo era tratado antigamente?

Antes de existir um diagnóstico próprio, muitas pessoas autistas eram confundidas com pessoas surdas, com epilepsia, deficiência intelectual, psicose ou esquizofrenia infantil. Algumas eram afastadas da escola, escondidas da sociedade ou internadas por longos períodos.

Essas práticas refletiam o conhecimento e os preconceitos de cada época. Crianças que não falavam podiam ser consideradas incapazes de compreender; comportamentos repetitivos eram vistos apenas como problemas a eliminar; sensibilidades sensoriais raramente eram reconhecidas. A história do autismo também é, portanto, uma história de exclusão e de uma longa luta por dignidade.

Eugen Bleuler e a origem do termo autismo

Eugen Bleuler, psiquiatra suíço, utilizou o termo no começo do século XX ao estudar a esquizofrenia. As fontes divergem entre 1908 e 1911 quanto ao primeiro uso ou publicação, mas concordam que Bleuler não estava descrevendo o TEA como o compreendemos hoje.

Ele falava de um afastamento para o mundo interior. Somente décadas depois o termo seria reaproveitado para nomear um conjunto específico de características presentes desde a infância.

Leo Kanner e a descrição do autismo infantil

Em 1943, o psiquiatra Leo Kanner publicou o artigo “Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo”. Ele descreveu oito meninos e três meninas que apresentavam diferenças entre si, mas compartilhavam características marcantes.

  • dificuldades persistentes na interação social;
  • formas incomuns de comunicação e linguagem;
  • ecolalia e inversão de pronomes em algumas crianças;
  • necessidade intensa de manter rotinas e padrões;
  • interesses muito específicos;
  • sensibilidades a sons e outros estímulos.

Kanner percebeu algo essencial: aquelas crianças não formavam um grupo homogêneo. Algumas falavam; outras não utilizavam a fala. Algumas demonstravam habilidades notáveis em áreas específicas. Apesar das diferenças, havia um padrão comum que ainda não possuía uma classificação adequada.

Donald Triplett: a primeira pessoa diagnosticada com autismo

Donald Grey Triplett nasceu em 1933, no Mississippi, Estados Unidos, e ficou conhecido como o “Caso 1” do trabalho de Kanner. É considerado a primeira pessoa com um diagnóstico documentado de autismo no mundo.

Donald Triplett, primeira pessoa com diagnóstico documentado de autismo
Donald Triplett, o “Caso 1” descrito por Leo Kanner.

Desde pequeno, Donald demonstrava uma memória extraordinária, grande interesse por números e música e pouca resposta às tentativas de interação. Aos três anos, foi internado por recomendação médica, mas seus pais o retiraram da instituição e insistiram para que pudesse viver em sua comunidade. Donald estudou, trabalhou durante décadas em um banco e viveu cercado por uma cidade que aprendeu a respeitar suas particularidades. Morreu em 2023, aos 89 anos.

Seu percurso lembra que o ambiente, o apoio familiar, a educação e as oportunidades podem transformar a vida de uma pessoa, mesmo quando a ciência ainda não possui todas as respostas.

As outras crianças observadas por Kanner

Os relatos de Frederick, Richard, Barbara, Herbert e Virginia mostraram uma diversidade que permanece central no conceito atual de espectro. Algumas crianças utilizavam a fala com precisão, mas tinham dificuldade para usá-la em uma conversa. Outras não falavam. Barbara apresentava facilidade para leitura e escrita, mas dificuldade para compreender o conteúdo lido.

A pergunta surgida daqueles casos continua atual: como pessoas tão diferentes podem compartilhar o mesmo diagnóstico? A resposta está na combinação de características e na necessidade de avaliar cada pessoa individualmente, sem reduzir o autismo a um único modelo.

Hans Asperger e as controvérsias de sua história

Em 1944, o médico austríaco Hans Asperger publicou um estudo sobre quatro meninos que apresentavam dificuldades sociais, interesses intensos, linguagem formal e, em alguns casos, habilidades intelectuais destacadas. Ele utilizou a expressão histórica “psicopatia autista”, que não possui o mesmo significado clínico da palavra psicopatia atualmente.

Hans Asperger e a história do autismo
Hans Asperger publicou seu trabalho em Viena em 1944.

Décadas depois, seu sobrenome foi utilizado para nomear a síndrome de Asperger. Pesquisas históricas mais recentes também examinaram sua atuação durante o regime nazista e sua relação com o sistema médico que encaminhava crianças consideradas incapazes para instituições onde muitas morreram. Esse passado exige uma apresentação crítica, sem apagar as pessoas descritas em seus estudos nem transformar o médico em herói.

A teoria da “mãe-geladeira”: quando a ciência culpou as famílias

Um dos capítulos mais dolorosos da história do autismo ocorreu nas décadas de 1950 e 1960. A chamada teoria da “mãe-geladeira” afirmava, sem evidência, que o autismo seria provocado por mães frias ou emocionalmente distantes.

Bruno Bettelheim foi um dos principais divulgadores dessa ideia. Muitas mães foram culpadas, afastadas dos filhos e submetidas a julgamentos cruéis. A teoria foi progressivamente desacreditada por pesquisas que demonstraram a base biológica e genética do autismo. Hoje sabemos que a forma de criação e o afeto dos pais não causam autismo.

Bernard Rimland, psicólogo e pai de uma criança autista, teve papel importante nessa mudança. Em 1964, publicou um livro defendendo que o autismo deveria ser compreendido a partir do desenvolvimento neurológico, e não como resultado da suposta frieza materna.

Lorna Wing e a ideia de espectro

A psiquiatra britânica Lorna Wing também era mãe de uma filha autista. Seus estudos ajudaram a mostrar que as características do autismo formavam um contínuo muito mais amplo do que o modelo inicialmente descrito por Kanner.

Em 1981, Wing divulgou internacionalmente o trabalho de Asperger e contribuiu para popularizar a expressão síndrome de Asperger. Mais importante que o rótulo foi a mudança de perspectiva: o autismo não podia ser entendido como uma condição única, com uma apresentação igual em todas as pessoas.

Como o autismo mudou no DSM

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, publicado pela Associação Americana de Psiquiatria (APA), mostra como o conceito se transformou:

  • DSM-I e DSM-II: comportamentos autistas apareciam associados à esquizofrenia infantil.
  • DSM-III, de 1980: o autismo infantil ganhou uma categoria própria entre os Transtornos Invasivos do Desenvolvimento.
  • DSM-IV, de 1994: passou a reunir diagnósticos como transtorno autista, síndrome de Asperger, transtorno desintegrativo da infância e transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação.
  • DSM-5, de 2013: unificou esses diagnósticos sob a denominação Transtorno do Espectro Autista.
  • DSM-5-TR, de 2022: manteve o TEA entre os transtornos do neurodesenvolvimento e esclareceu aspectos dos critérios.

O DSM-5 utiliza três níveis relacionados à necessidade de apoio: nível 1, requer apoio; nível 2, requer apoio substancial; e nível 3, requer apoio muito substancial. Esses níveis não definem o valor, a inteligência ou todo o futuro da pessoa e podem não descrever igualmente todas as áreas de sua vida.

Autismo na CID-11

A Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde também mudou. Na CID-10, diferentes diagnósticos apareciam dentro dos Transtornos Globais do Desenvolvimento, no grupo F84.

Na CID-11 da Organização Mundial da Saúde, o Transtorno do Espectro do Autismo recebe o código 6A02. As subdivisões consideram a presença ou ausência de deficiência intelectual e o grau de comprometimento da linguagem funcional. Essa abordagem é mais precisa do que tratar todas as pessoas autistas como se tivessem as mesmas capacidades e necessidades.

Quando surgiu o autismo no Brasil?

A resposta depende do que chamamos de “surgir”. O conceito começou a circular no Brasil pela psiquiatria infantil e por matérias traduzidas da imprensa estrangeira em meados do século XX. Entretanto, há poucos registros públicos sobre os primeiros diagnósticos individuais no país.

Não existe uma fonte histórica sólida e amplamente aceita que permita afirmar, pelo nome, quem foi a primeira pessoa diagnosticada com autismo no Brasil. Por responsabilidade, é melhor reconhecer essa lacuna do que transformar uma história sem documentação em fato. Donald Triplett continua sendo o primeiro caso documentado mundialmente.

No Brasil, a história ganhou força sobretudo pela organização das famílias:

  • 1983: familiares fundaram em São Paulo a Associação de Amigos do Autista (AMA), diante da falta de informação e atendimento.
  • 1988: foi fundada a Associação Brasileira de Autismo (ABRA), reunindo organizações de diferentes regiões.
  • 2011: foi publicado o primeiro estudo de prevalência de autismo da América Latina, realizado em Atibaia, São Paulo.
  • 2012: a Lei nº 12.764, conhecida como Lei Berenice Piana, instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA e reconheceu a pessoa autista como pessoa com deficiência para todos os efeitos legais.
  • 2019: a Lei nº 13.861 determinou a inclusão de informações sobre autismo nos censos demográficos.
  • 2025: o IBGE divulgou que 2,4 milhões de brasileiros declararam ter recebido diagnóstico de autismo, equivalentes a 1,2% da população com dois anos ou mais.

A trajetória brasileira não foi construída apenas por médicos. Mães, pais, associações e, cada vez mais, as próprias pessoas autistas transformaram uma condição quase invisível em tema de direitos, educação, saúde e participação social.

Uma história que também atravessou nossa família

Eu sou Enoc Sejas, engenheiro agrônomo e pai de Keithon. Quando meu filho era pequeno, minha esposa Dalcy percebeu algo que nenhum manual havia nos ensinado a observar: durante o banho, ele não olhava para ela. Depois vieram as dúvidas sobre a fala e o desenvolvimento. Pessoas próximas tentavam nos tranquilizar dizendo que ele falaria mais tarde, mas nós sentíamos que precisávamos procurar respostas.

Vivíamos em Saavedra, na Bolívia. Uma professora do pré-escolar reconheceu em Keithon características semelhantes às de seu próprio filho autista. Essa observação abriu uma porta, mas não encerrou a busca. Enfrentamos respostas contraditórias, dificuldades escolares e profissionais que nem sempre compreendiam o que estávamos vivendo.

Em dezembro de 2009, saímos da Bolívia. Passamos pela Argentina e depois fomos para Pelotas, no Rio Grande do Sul, Brasil, sempre procurando melhores oportunidades e apoio para Keithon. No Brasil, ele estudou, aprendeu primeiro o português e avançou na leitura e na escrita. Depois retornamos à Argentina, onde uma junta médica confirmou o diagnóstico de TEA grau 1. Keithon concluiu seus estudos escolares.

Nossa viagem mostra por que a história do autismo não pertence somente aos livros. Mesmo no século XXI, uma família pode atravessar países, escolas e consultórios em busca de uma resposta. O conhecimento científico avançou, mas o acesso a profissionais preparados, educação inclusiva e apoio respeitoso ainda não chega igualmente a todos.

Também aprendemos que um diagnóstico não conta toda a história de uma pessoa. Keithon sempre foi mais do que uma lista de características: é um jovem com interesses, capacidades, desafios e uma maneira própria de perceber o mundo.

Do modelo médico à neurodiversidade

Durante grande parte do século XX, a história do autismo foi escrita quase exclusivamente por médicos e pesquisadores. Nas últimas décadas, pessoas autistas passaram a participar diretamente dessa construção, questionando tratamentos desumanizantes e defendendo o lema “nada sobre nós sem nós”.

O movimento da neurodiversidade propõe compreender diferenças neurológicas como parte da diversidade humana. Isso não significa negar dificuldades, deficiência ou necessidade de apoio. Significa reconhecer que suporte e respeito devem caminhar juntos, sem tentar apagar a identidade da pessoa.

Como o autismo é compreendido atualmente?

Hoje, o TEA é reconhecido como um transtorno do neurodesenvolvimento com forte contribuição genética e múltiplos fatores envolvidos. Não é causado pela educação dos pais, pela falta de afeto nem por vacinas. Não existe uma única aparência, personalidade ou trajetória autista.

Algumas pessoas precisam de apoio muito substancial durante toda a vida; outras conquistam maior autonomia. Muitas apresentam necessidades diferentes conforme o ambiente, a idade e a área avaliada. Uma pessoa pode falar fluentemente e, ainda assim, necessitar de apoio intenso para lidar com sobrecarga sensorial, mudanças ou relações sociais.

A principal mudança histórica talvez seja esta: deixamos de perguntar apenas como tornar a pessoa autista mais parecida com as demais e começamos a perguntar de que apoio ela precisa para aprender, comunicar-se, participar e viver com dignidade.

Perguntas frequentes sobre a história do autismo

Quem descobriu o autismo?

Não houve uma única “descoberta”. Eugen Bleuler criou o termo no início do século XX. Leo Kanner descreveu o autismo infantil como um quadro específico em 1943, e Hans Asperger publicou outro estudo em 1944.

Quem foi a primeira pessoa diagnosticada com autismo?

Donald Grey Triplett, nascido nos Estados Unidos em 1933, foi o “Caso 1” de Leo Kanner e é considerado a primeira pessoa com diagnóstico documentado de autismo.

Quem foi a primeira pessoa diagnosticada no Brasil?

Até o momento, não existe um registro histórico confiável e amplamente reconhecido que identifique essa pessoa pelo nome. A circulação do conceito no Brasil começou em meados do século XX, mas a documentação dos primeiros casos é limitada.

Como era chamado o autismo antigamente?

Durante diferentes períodos, foi associado à esquizofrenia infantil e depois chamado de autismo infantil, transtorno autista ou parte dos Transtornos Globais do Desenvolvimento. Desde o DSM-5, a denominação utilizada é Transtorno do Espectro Autista.

A síndrome de Asperger ainda existe como diagnóstico?

No DSM-5, os diagnósticos anteriores foram incorporados ao Transtorno do Espectro Autista. Pessoas anteriormente diagnosticadas com síndrome de Asperger podem continuar utilizando o termo como parte de sua identidade, mas ele não é um diagnóstico separado no DSM-5.

Referências

Conteúdo atualizado em 2026. Este artigo tem finalidade informativa e não substitui avaliação profissional.

Enoc Sejas
Enoc Sejas

Enoc Sejas é Engenheiro Agrônomo e, acima de tudo, um pai dedicado. De origem boliviana, Enoc e sua esposa Dalcy têm percorrido uma longa jornada em busca do melhor para seu filho Keithon, que tem Transtorno do Espectro Autista (TEA Grau 1). A sua viagem familiar levou-os da Bolívia para a Argentina, depois para o Brasil, e de volta à Argentina, sempre buscando as melhores oportunidades. A partir desta valiosa experiência, Enoc compartilha informações e apoio neste site para outras famílias.

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