Donald Gray Triplett (1933–2023) foi apresentado como o “Caso 1” no estudo sobre autismo publicado por Leo Kanner em 1943. É por isso que costuma ser lembrado como a primeira pessoa diagnosticada com autismo. Isso não quer dizer que tenha sido a primeira pessoa autista a viver: seu caso entrou para a história porque foi descrito naquele trabalho pioneiro.
Sou pai de Keithon. Nossa família também precisou buscar respostas quando ainda não entendíamos bem o que estava acontecendo com ele. Ao conhecer a história de Donald, pensei nos pais que observam o filho, procuram ajuda e seguem ao lado dele mesmo quando não encontram uma explicação imediata.
Quem foi Donald Triplett?
Donald nasceu em 8 de setembro de 1933 em Forest, no estado de Mississippi, nos Estados Unidos. Antes da primeira consulta com Kanner, seu pai, Beamon, enviou um relato detalhado sobre o desenvolvimento do menino. O psiquiatra o examinou pela primeira vez em outubro de 1938, quando ele tinha cinco anos.
No relato publicado por Kanner, Donald aparece como uma criança que gostava de canções, lembrava nomes e se interessava por letras, números e objetos que giravam. O texto também descreve dificuldades em certas interações do dia a dia e a repetição de algumas frases. São observações sobre uma criança específica, feitas há mais de 80 anos. Elas não definem todas as pessoas autistas.

Por que ele é conhecido como o primeiro diagnosticado?
Em 1943, Kanner publicou Autistic Disturbances of Affective Contact, artigo em que descreveu onze crianças. Donald T. aparece primeiro, identificado como “Case 1” — “Caso 1” em português. A publicação ajudou a estabelecer uma descrição clínica do autismo infantil, que mudou bastante desde então.
Portanto, chamar Donald de “primeiro autista da história” seria impreciso. Ele foi o primeiro caso apresentado naquele estudo e é amplamente reconhecido como a primeira pessoa diagnosticada a partir daquela descrição clínica. Antes de 1943, já existiam pessoas autistas, mesmo sem esse diagnóstico. Hoje, a Organização Mundial da Saúde reconhece que capacidades e necessidades de apoio variam muito de pessoa para pessoa.
O que aconteceu na infância de Donald?
O texto de Kanner registra que Donald ficou em um sanatório para tuberculose a partir de agosto de 1937, em uma tentativa de mudar seu ambiente. Isso aconteceu antes da consulta com Kanner, em 1938. Não há motivo para apresentar aquela estadia como uma recomendação do psiquiatra nem como um tratamento para o autismo.
Depois, Donald cresceu em Forest. No documentário In a Different Key, os realizadores contam que sua mãe procurou a escola local para que ele pudesse estudar. A família tinha recursos e influência na cidade, circunstâncias que ajudaram a abrir portas que muitas crianças de sua época não encontravam.
Como foi a vida adulta dele?
Donald concluiu seus estudos no Millsaps College em 1958. De volta a Forest, trabalhou por décadas no Bank of Forest. Gostava de jogar golfe e de viajar. Ele morreu em 15 de junho de 2023, aos 89 anos. A reportagem publicada pela PBS após sua morte reúne esses aspectos de sua vida.
É fácil transformar essa trajetória em uma promessa para todas as famílias, mas cada pessoa autista tem interesses e necessidades próprias. A história de Donald mostra também o peso que o acesso à escola, os recursos familiares e a convivência na comunidade tiveram em sua vida.
O que a história de Donald nos faz pensar?
Donald não foi apenas o nome que abriu um estudo científico. Teve uma vida própria, fora dos relatórios médicos, e pessoas ao seu redor que lhe deram espaço para participar da comunidade.
Como pai, é isso que mais levo comigo: buscar um diagnóstico pode ajudar a compreender necessidades e encontrar apoio. Depois, precisamos continuar olhando para a pessoa à nossa frente — para o que ela gosta, para as dificuldades que enfrenta e para o que deseja fazer. Keithon tem sua história. Donald teve a dele.
Referências
- Kanner, Leo. Autistic Disturbances of Affective Contact. Nervous Child, 1943.
- PBS. In a Different Key. Documentário, 2022.
- PBS News. Donald Triplett, the 1st person diagnosed with autism, dies at 89. 2023.
- Organização Mundial da Saúde. Autism. 2025.
